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Tuberculose ainda é considerada um caso de saúde pública - entrevista com Dra.Margareth Dalcolmo PDF Imprimir E-mail

O Brasil ocupa o 19º lugar entre os 22 países responsáveis por 80% do total de casos de tuberculose no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima 92 mil casos novos a cada ano, tendo o Brasil detectado 78% desses casos em 2008. Segundo dados do Ministério da Saúde, anualmente são notificados, no Brasil, cerca de 83 mil casos de tuberculose, sendo que, destes, 72 mil casos são novos.

 

Para Margareth Dalcolmo, médica pneumologista do Centro de Referência Professor Hélio Fraga da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (CRPHF/ENSP/Fiocruz), apesar de a incidência da tuberculose no país estar diminuindo a cada ano, a situação ainda pode ser considerada de grande magnitude. Nesta entrevista, ela esclarece sobre os sintomas, tratamento e principais fatores de risco da tuberculose.

 

Mobilizadores COEP - A tuberculose é considerada, por grande parte da população, uma doença esquecida? É correto pensar assim? Quantos casos da doença ocorrem, anualmente, no Brasil?

 

R.: A tuberculose é uma doença antiga, porque acompanha o homem, comprovadamente, há séculos, mas não é do passado. No Brasil, ocorrem 72 mil casos novos a cada ano, e isso representa uma situação ainda de grande magnitude. A incidência está se reduzindo em todo o país cerca de 3% ao ano, e a mortalidade também. Porém, ainda morrem cerca de 4.500 pessoas por tuberculose a cada ano em nosso país.

 

Mobilizadores COEP - Que estados e/ou municípios apresentam o maior número de casos da doença? Por que motivos?

 

R.: A tuberculose é uma doença urbana, relacionada às condições de vida, de moradia, e também ao status imunológico individual da pessoa. Portanto, sendo uma doença de transmissão pessoa a pessoa, está marcada por um traço social determinante, ou seja, é típica de pessoas que vivem em sociedade, aglomeradas, agrupadas. É mais comum nas áreas do mundo onde há muita pobreza, promiscuidade, desnutrição, más condições de higiene e uma saúde pública deficitária.

 

A grande incidência da doença no estado do Rio é histórica. O Rio foi a entrada da tuberculose no país, no século 16, que foi transmitida a uma população indefesa por razões provavelmente étnicas e imunológicas. Além disso, tem geografia particular, com riqueza e pobreza muito próximas numa faixa mínima de terra entre a montanha e o mar, onde sempre houve favela, sem contar com fatores recentes, como imigração, exclusão social e deterioração da rede de serviços de saúde pública. Isso chegou aos nossos dias e se agravou nas últimas décadas pela ineficiência do sistema de saúde. Rio de Janeiro e Manaus são as cidades com maiores taxas de incidência no Brasil.

 


Mobilizadores COEP – O que é tuberculose e como se pega a doença?

 

R.: A tuberculose é uma doença infecciosa, de evolução crônica, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, que ataca o pulmão e outros órgãos. O bacilo de Koch é o agente transmissor da doença. A transmissão ocorre através do contato com alguém doente, pela tosse, fala ou saliva. O contágio é aerógeno, ou seja, pelo ar. O risco de transmissão é direto, de pessoa a pessoa, e maior quando existe o contato prolongado com pessoas infectadas em ambientes fechados e com pouca ventilação. O doente expele, ao falar, espirrar ou tossir, pequenas gotas de saliva que contêm o agente infeccioso que podem ser aspiradas por outro indivíduo, contaminando-o.

 

Mobilizadores COEP - Quais os principais sintomas da doença? Eles sempre se manifestam logo no início?

 

R.: Na maioria dos infectados, os sinais e sintomas mais frequentemente descritos são tosse seca contínua no início, com presença de secreção, transformando-se, na maioria das vezes, em uma tosse com pus ou sangue; cansaço excessivo, febre baixa geralmente à tarde, suor excessivo à noite, falta de apetite, palidez, emagrecimento acentuado e fraqueza. Os casos graves apresentam dificuldade na respiração e eliminação de grande quantidade de sangue. Os sintomas podem vir se manifestando pouco a pouco ou abruptamente, dependendo das condições de cada paciente.

 

Mobilizadores COEP - Como é feito o diagnóstico da tuberculose?

 

R.: Através do exame de escarro e da radiografia dos pulmões. A maior parte dos casos é pulmonar, embora a doença possa se manifestar em qualquer outro órgão.

 


Mobilizadores COEP - Há grupos de pessoas mais propensos a contrair a doença? Em caso afirmativo, quais e por quê?

 

R.: Sim, pessoas debilitadas, portadores de aids ou outras condições que reduzam a imunidade, como diabetes, e pessoas que fazem uso prolongado de corticóides. Má alimentação, falta de higiene, tabagismo, alcoolismo ou qualquer outro fator que gere baixa resistência orgânica também favorecem o estabelecimento da doença. Os usuários de drogas são o mais complexo grupo a ser tratado, devido à desinserção social, que os impedem de aderir ao tratamento.

 

Mobilizadores COEP - É possível prevenir a tuberculose? De que forma?


R.: Sim. Existem duas formas além, naturalmente dos cuidados com o agente contagiante, uma vez que este é conhecido. A vacina BCG (Bacilo Calmette-Guérin), aplicada em todo recém nascido com mais de 2 quilos ao nascer, protege contra as formas graves e disseminadas da doença. Há também o tratamento da infecção latente ou a chamada quimioprofilaxia, que constitui uma medida terapêutica para a prevenção da infecção pelo Mycobacterium tuberculosis ou para evitar o desenvolvimento da doença nos indivíduos infectados. Geralmente baseia-se na administração de isoniazida. Entretanto, o uso de rifampicina e pirazinamida vem sendo recentemente introduzido. Este tratamento é feito em pessoas que apresentam reação ao teste tuberculínico (PPD).

 

Mobilizadores COEP - Qual o tratamento recomendado para pessoas com tuberculose? A tuberculose tem cura?

 

R.: O uso de medicamentos por via oral, uma associação de 4 fármacos em comprimidos chamados de dose fixa combinada, por um período de seis meses.

 

A tuberculose tem cura se o tratamento for levado a cabo com regularidade e pelo tempo adequado. Sendo assim, é curável em 100% dos casos. Também é indicada e altamente recomendável a supervisão do uso dos medicamentos por algum profissional de saúde ou familiar.

 


Mobilizadores COEP - Quais os principais riscos na interrupção do tratamento?

 

R.: É importantíssimo realizar o tratamento completo. Do contrário, ocorre o desenvolvimento de resistência aos fármacos padronizados, resultando em tratamentos mais longos, mais caros e com menor expectativa de cura.

 

 

Mobilizadores COEP - O Sistema Único de Saúde (SUS) está capacitado para realizar o diagnóstico e o tratamento da doença?

 

R.: Temos o maior serviço de saúde pública do mundo, que dá cobertura a 80% da população, responsável pela maior parte dos atendimentos nas doenças endêmicas ou de notificação compulsória, como a tuberculose. Por outro lado, há deficiências na administração. No Rio, por exemplo, dispomos de serviço nas redes terciária, secundária e primária, mas isso não funciona de maneira adequada. De 30% a 33% das mortes por tuberculose — a maior taxa do Brasil — ocorrem em hospitais de emergência. Isso quer dizer que as unidades não estão sendo capazes de detectar ou acompanhar com a desejável satisfação os casos descobertos.

 

Mobilizadores COEP - Que novas ações vêm sendo viabilizadas pelo governo para combater a doença no país?

 


R.: A tuberculose ainda é um sério problema da saúde pública, com profundas raízes sociais. Está intimamente ligada à pobreza e à má distribuição de renda, além do estigma que implica a não adesão dos portadores ou familiares. O surgimento da epidemia de aids e o aparecimento de focos de tuberculose multirresistente agravam ainda mais o problema da doença no mundo.

 

O Ministério da Saúde, através do Programa Nacional de Controle da Tuberculose (PNCT), procura disseminar a informação sobre a doença e esclarecer a população sobre sintomas e o tratamento adequado. Esta estratégia continua sendo uma das prioridades para que o país atinja a meta de curar 85% dos doentes, diminuindo a taxa de abandono a menos de 5%, evitando o surgimento de bacilos resistentes e possibilitando um efetivo controle da tuberculose no país.

 

Entrevista para o Grupo Promoção da Saúde - 25/04/2011

 

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